Contos do autor
Narrativas curtas com humor, observação do cotidiano, linguagem viva e personagens que revelam, em pequenos conflitos, algo maior sobre o modo como falamos, reagimos e existimos.
Biblioteca de contos
Textos curtos organizados em cards, com abertura individual para uma leitura mais limpa e confortável.
Onde o Asfalto Termina
Onde o Asfalto Termina
A estrada de terra começava onde o asfalto parecia não querer continuar.
Depois dali, havia apenas árvores antigas, pedras cobertas de musgo e o vento atravessando as copas num ruído profundo e irregular. O homem estacionou perto de uma cerca caída, pegou a mochila no banco do passageiro e desligou o celular antes de entrar na trilha.
Tinha trinta e cinco anos e já não conseguia lembrar da última refeição feita sem olhar para uma tela.
Trabalhava num escritório sem janelas no centro da cidade. Os dias se repetiam entre planilhas, reuniões longas e mensagens que chegavam mais rápido do que ele conseguia responder. Ultimamente, sentia dificuldade para respirar mesmo sentado. Uma pressão curta no peito. Dor constante nas costas depois de horas curvado na cadeira.
Duas semanas antes, perto das onze da noite, vira o próprio reflexo apagado no monitor do computador. Havia comida fria sobre a mesa e quarenta e três mensagens não lidas no celular.
A última era da irmã perguntando se ele apareceria no aniversário do pai naquele domingo.
Naquela noite, percebeu que não lembrava da última vez em que ouvira vento sem estar usando fones de ouvido.
Continuou caminhando.
O cheiro úmido do musgo nas pedras se misturava ao da terra molhada. Em algum lugar acima das árvores, pássaros cantavam num ritmo tranquilo, quase hipnótico. O som da água correndo entre as raízes parecia desacelerar alguma coisa dentro dele.
Depois de quase uma hora, encontrou uma clareira estreita cortada por um riacho. Sentou-se numa pedra lisa e respirou devagar.
As pernas doíam mais do que ele esperava. Percebeu o quanto o próprio corpo tinha desaprendido o esforço simples de caminhar.
Ali, pela primeira vez em muito tempo, percebeu o próprio silêncio e aquilo o incomodou antes de acalmá-lo.
Ficou observando a correnteza atravessar as pedras escuras enquanto lembrava do estacionamento do escritório. Homens comprando carros que mal tinham tempo de dirigir. Pessoas saindo tarde da noite com os olhos presos ao brilho dos celulares. Rostos cansados refletidos nos vidros dos elevadores.
Ele também fazia parte daquilo.
Abaixou a cabeça por alguns segundos. As costas latejavam.
O riacho seguia correndo sem pressa.
Sem saber exatamente por quê, abriu a mochila e puxou o crachá da empresa. Ficou olhando para o plástico pendurado na ponta dos dedos, para a fotografia tirada três anos antes, quando ainda parecia dormir direito.
Então abriu os dedos devagar e deixou o crachá cair na correnteza.
O objeto girou devagar entre as pedras antes de desaparecer na correnteza.
Uma rajada de vento atravessou a clareira. As folhas dançaram acima dele. O homem fechou os olhos.
Não havia notificações.
Não havia vozes.
Não havia ninguém esperando resposta imediata.
Quando tornou a abrir os olhos, o céu começava a escurecer atrás das árvores.
Ele permaneceu imóvel por alguns instantes, ouvindo apenas a água, os pássaros distantes e o vento passando entre as copas.
Então percebeu uma coisa simples.
A floresta não exigia nada dele.
As árvores continuavam de pé sem competir entre si.
O riacho corria sem precisar impressionar ninguém.
O vento atravessava a mata sem medo de fracassar.
Pensou na cidade. Em andares inteiros ainda acesos, como se ninguém ali tivesse permissão para descansar. Nos carros presos em filas. Em pessoas chegando em casa tarde demais para conversar com os próprios filhos.
Quantos, se pudessem voltar atrás, escolheriam tudo aquilo outra vez?
Quantos aceitariam ter menos, se isso significasse finalmente respirar em paz?
Depois ele se levantou devagar e voltou para a trilha.
O telefone continuava dentro da mochila.
Por alguns segundos, pensou em ligar o telefone. Depois continuou andando.
Eliseu Oliveira
Você Não Está Pensando
Você Não Está Pensando
Ele cresceu olhando telas.
Primeiro eram poucas: uma televisão na sala, ligada quase o dia inteiro. Depois vieram outras, menores, mais próximas, mais íntimas. No bolso, na mão, no rosto. Com o tempo, ele não apenas via as telas, pensava com elas.
Aprendeu cedo o que sentir, o que odiar, o que defender. Tudo vinha pronto. Bastava deslizar o dedo, concordar com a cabeça e seguir em frente. Achava que era sabedoria, mas não passava de informação.
Nunca lhe ocorreu que aquilo pudesse ser uma espécie de caverna.
Não havia correntes. Não havia sombras projetadas em uma parede úmida. Havia luz e brilho, cores vibrantes, sons envolventes, vozes confiantes. Pessoas bem vestidas, inteligentes, convincentes. Elas explicavam o mundo em poucos minutos. Simplificavam o que era complexo. Traduziram a realidade em fragmentos digeríveis.
E ele acreditava.
Acreditava porque era fácil. Porque funcionava. Porque todos ao seu redor também acreditavam.
Até o dia em que algo quebrou.
E, pela primeira vez em muito tempo, ele fez algo que evitava: pensou sozinho.
Ele abriu a tela, como sempre fazia. Parou. Ficou alguns segundos olhando para o brilho. Depois, sem saber exatamente por quê, apagou.
Foi desconfortável.
Sem a tela, o silêncio parecia pesado; as ideias, instáveis.
Ele percebeu o quanto dependia daquilo que consumia para organizar o próprio pensamento.
Sair da caverna não é libertador no início. É doloroso. A luz incomoda. A realidade não se ajusta aos desejos. Exige esforço, tempo, humildade.
Ele percebeu que não sabia quase nada.
E, pela primeira vez, isso não o paralisou. O impulsionou.
Ele buscou em ideias, filosofias, argumentos bem construídos.
Encontrou muito, inteligência, coerência, beleza até.
Mas tudo parecia incompleto.
Foi então que encontrou algo diferente.
Não em uma tela. Não em um influenciador. Não em uma narrativa moldada para agradar.
Mas em um encontro, simples e incômodo demais para os padrões atuais.
Ali não havia tentativa de convencer pela força, nem de seduzir pela estética. Havia algo mais difícil de aceitar: compreender exigia mais do que acumular respostas. Exigia disposição para enxergar o que antes ele evitava.
Aquilo o incomodou.
Até então, ele acreditava que conhecer era dominar.
Aquilo subvertia tudo.
E isso parecia absurdo.
Ainda assim, ele não conseguiu ignorar.
Havia ali uma coerência que não dependia de contexto. Uma firmeza que não se moldava à opinião. Uma clareza que não precisava gritar.
Não era informação. Era sabedoria.
Era como uma luz na entrada da caverna.
Não ofuscante como as telas. Não sedutora como os discursos. Mas constante e verdadeira.
E, aos poucos, ele percebeu algo desconcertante: tudo o que antes parecia sólido começava a parecer sombra.
Certezas fáceis, opiniões prontas, verdades rápidas, tudo aquilo que um dia o guiou agora parecia superficial e insuficiente.
Pela primeira vez, ele não apenas entendia o mundo, mas começava a enxergá-lo sem mediações.
Isso o assustou e, ainda assim, o libertou.
Porque, naquele silêncio, ele percebeu que a verdade não se constrói à pressa. Ela se revela a quem permanece.
E que viver sem buscá-la não era liberdade.
Era apenas uma forma elegante de permanecer na caverna.
Eliseu Oliveira
O Último Olhar para a Terra
O Último Olhar para a Terra
A plataforma de observação da Estação Habitacional Orbital avançava para o vazio como uma varanda suspensa sobre o silêncio do espaço. Dali, a Terra parecia um corpo cansado girando lentamente no escuro. Onde antes havia mares, restavam cicatrizes minerais. Onde antes havia florestas, apenas manchas avermelhadas.
Elias observava.
Seus dedos apoiavam-se no corrimão metálico enquanto sensores discretos ajustavam o ar e a temperatura ao redor de seu corpo. Atrás dele, painéis eletrônicos pulsavam com dados silenciosos. Portas inteligentes abriam-se e fechavam-se sem ruído. A inteligência da estação cuidava de tudo: oxigênio, luz, alimento, gravidade artificial.
Mas nenhuma delas sabia cuidar da saudade.
Ele havia chegado ali durante a terceira grande evacuação planetária, quando milhões de pessoas deixaram a superfície da Terra pela última vez. Era apenas um menino. Pequeno demais para compreender o que estava acontecendo. Pequeno demais para entender o que significava deixar um planeta para trás.
Naquela época ele apenas segurava a mão de sua mãe.
Hoje, velho, ele entendia o que o menino não conseguira dizer.
O que mais lhe faltava era o vento verdadeiro batendo no rosto. Não do ar reciclado que corria pelos dutos da estação, calibrado por máquinas. O vento da Terra vinha sem pedir licença, bagunçava os cabelos e fazia o coração se lembrar de que estava vivo.
Também sentia falta da terra sob os pés.
Na estação havia jardins artificiais, gramados geneticamente controlados, montanhas simuladas e lagos perfeitamente equilibrados por algoritmos climáticos.
Nada crescia fora do lugar. Nada morria antes da hora.
Tudo funcionava.
Talvez perfeito demais para parecer vivo.
Ele lembrava que na Terra havia poeira, pedras, folhas secas e surpresas. Havia a alegria simples de correr descalço no quintal.
E havia algo ainda mais difícil de substituir: o cheiro da grama.
Nenhum laboratório da estação conseguia reproduzir aquilo com fidelidade. Talvez porque certos aromas não existam apenas no ar, mas também nas pessoas que estavam ao nosso lado quando os sentimos.
E, em todas as suas lembranças, estava sua mãe.
Ele ainda conseguia vê-la na cozinha, mexendo uma panela enquanto a luz da manhã entrava pela janela e iluminava os fios soltos de seu cabelo. Na estação, a alimentação vinha de processadores moleculares e cartuchos nutricionais perfeitamente balanceados. Nada faltava ao corpo humano ali.
Mas faltava algo.
A comida de sua mãe era diferente. Era simples, mas para ele tinha o sabor de um oásis no deserto no meio do dia. E havia o sorriso dela. Um sorriso tranquilo, que parecia organizar o mundo.
Às vezes outra lembrança surgia com força.
Ele se recordava de estar no colo dela, ainda pequeno, enquanto ela cantava uma música antiga. Uma música que o tempo levou embora e que ele nunca mais
conseguiu encontrar inteira. Ele não entendia o que a canção significava, mas lembrava de um trecho que repetia com alegria:
“ele correu, ele correu, mas o vencedor fui eu”.
Ele não sabia contra quem era a corrida. Nem o que aquela vitória queria dizer. Só lembrava do calor do colo dela e da paz que aquela voz trazia.
Elias compreendeu algo ao longo dos anos.
A saudade que sentia da Terra era a mesma saudade que sentia de sua mãe.
A Terra lhe dera o vento, o chão, o cheiro da grama.
Sua mãe lhe dera abrigo, alimento, carinho e paz.
Ele era muito novo quando deixou aquele mundo.
Menino demais para compreender o valor das coisas que o cercavam.
Hoje, velho, entendia que certas riquezas parecem simples enquanto existem e se tornam imensuráveis quando desaparecem.
Elias levantou os olhos uma última vez para o planeta devastado.
As lágrimas vieram.
Chorou pela Terra que desaparecera.
Chorou pela mãe que também não estava mais ali.
Chorou porque nenhuma tecnologia da estação, seus painéis, portas inteligentes, trajes espaciais ou mundos artificiais podia devolver aquilo que realmente
importava.
Enxugando as lágrimas do rosto, ele sussurrou entre soluços:
“Sinto falta da mãe Terra... e do sorriso da minha mãe”.
Lá fora, a Terra continuava girando em silêncio.
Nuvens finas atravessando lentamente o planeta vazio.
O que dizer para a chuva
O que dizer para a chuva
A chuva batia forte do lado de fora quando entrei na sala da coordenação.
Parei por alguns segundos, sem querer interromper a cena diante de mim.
Os trovões, de tempos em tempos, faziam o ar estremecer. Perto da mesa estava um menino de sete anos, em pé, agitado demais para conter a própria angústia. Pele branca, cabelos encaracolados, olhos molhados e o rosto coberto de lágrimas. Com os ombros tensos, ele chorava baixinho. Eu entrei em silêncio para não interromper o diálogo.
Ao lado do menino, sentada para ficar na mesma altura de seus olhos, estava a professora. O cabelo preso em um rabo de cavalo balançava levemente enquanto ela falava.
Havia em sua voz uma serenidade que parecia encher toda a sala. Não havia pressa em suas palavras, apenas cuidado.
“O que está acontecendo?”, perguntou suavemente.
O menino respirou fundo, tentando organizar os próprios pensamentos. Lá fora, a chuva parecia bater ainda mais forte.
Com lágrimas escorrendo novamente pelo rosto, ele disse: “Eu não quero ficar na sala, tá chovendo muito.”
A professora manteve o olhar firme e gentil.
“Por quê?”
O menino demorou alguns segundos.
Então perguntou, quase num sussurro:“Mas… o que eu vou dizer para a chuva?”
Por um instante, ninguém falou nada. A pergunta ficou suspensa no ar, estranha e, ao mesmo tempo, profundamente sincera.
A professora não riu. Não corrigiu. Não apressou a conversa.
Ela apenas acolheu aquela lógica delicada que existia dentro da mente daquele menino.
“A chuva é nossa amiga”, disse com calma. “As plantas precisam dela para crescer. Os rios precisam dela. O sertão precisa muito da chuva.”
O menino escutava com atenção, ainda com o rosto molhado.
“Sabe… ninguém gosta muito de trabalhar em dia de chuva. A gente molha os pés, pisa na lama e, às vezes, até molha a cabeça”, continuou ela. “Às vezes dá vontade de ficar em casa, quietinho. Mas mesmo assim a gente precisa fazer nossas coisas.”
Ela tocou levemente o próprio peito e disse:
“Eu estou aqui fazendo o meu trabalho.”
Depois apontou para a janela, onde a chuva batia no vidro.
“E a chuva está lá fora fazendo o trabalho dela.”
Ela voltou os olhos para o menino.
“E você também tem o seu.”
O menino ficou em silêncio.
A professora falou mais devagar agora.
“O seu trabalho é aprender. O meu é ensinar. O da chuva é regar a terra.”
Lá fora, um trovão rolou pelo céu.
A professora segurou suavemente as mãos do menino.
“A chuva não vai te fazer mal. Nem os trovões. Eles só fazem barulho. A chuva está apenas cumprindo a missão dela.”
Ela fez uma pequena pausa.
“E você pode cumprir a sua aqui dentro, protegido na sala de aula.”
Aos poucos, algo mudou no rosto dele. A respiração foi se acalmando. As mãos, antes apertadas, relaxaram entre as mãos da professora.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse conversando em pensamento com aquela mesma chuva que o assustava.
Então enxugou o rosto com a manga da blusa.
“Tá bom”, disse baixinho.
A professora sorriu, aquele sorriso discreto de quem sabe que venceu não uma discussão, mas um medo.
Ela se levantou e estendeu a mão.
Ele segurou com força.
Os dois começaram a caminhar de volta para a sala de aula.
Eu ainda fiquei ali por alguns instantes, na sala, refletindo em tudo que ouvi.
Do lado de fora, a chuva continuava caindo.
E, pela primeira vez naquela manhã, ela já não parecia assustadora.
Ela apenas cumpria sua missão: regar a terra e transformar medo em compreensão.
Eliseu Oliveira
A corda
A corda
O vento sopra livre no topo da montanha.
Lá de cima, tudo parece claro: os caminhos, as pedras, os vales ao redor.
A montanha nunca parece tão difícil quando se está no topo.
Há uma sensação de domínio, quase de pertencimento, como se aquele lugar fosse o destino natural de quem chegou até ali.
Houve um tempo em que ele esteve ali.
Havia uma paz profunda, uma sensação de proximidade que ele nunca precisou explicar com palavras. A mando da montanha, os pássaros vinham acordá-lo.
Naquele tempo, tudo parecia simples.
O vento, o silêncio da altura e a sensação de proximidade com algo maior, tudo parecia natural. Não exigia esforço. Permanecer ali parecia simples.
Mas montanhas não expulsam ninguém.
Quem desce, desce por escolha.
No início, a descida parecia inofensiva. Até agradável. O caminho era rápido, quase sem esforço. Cada passo o afastava um pouco do topo, mas naquele momento isso não parecia importante. Havia outros caminhos, outras paisagens, outras promessas no vale.
Nenhuma escolha pareceu grave quando foi feita.
Pequenos desvios. Pequenos atalhos.
Primeiro um passo fora da trilha. Depois outro.
Nada parecia grave enquanto o topo ainda podia ser visto atrás dele.
Mas a montanha é paciente.
O peso das escolhas aparece apenas depois de muitos passos.
Agora ele estava novamente na encosta.
Olhando para cima.
O topo da montanha que um dia parecera familiar agora parecia distante.
A subida que antes era natural agora exigia tudo.
Ele puxou o corpo para cima mais uma vez.
A corda raspou nas mãos calejadas. A pele ardia. Os dedos tremiam ligeiramente pelo esforço contínuo.
Respirou fundo.
O ar frio entrou nos pulmões como pequenas lâminas. O cheiro seco da pedra vinha com o vento que descia pelas encostas.
A perna esquerda vacilou por um instante. O joelho ainda doía do escorregão alguns metros abaixo. A pedra cedera sob o peso do corpo e ele despencara um curto trecho antes de conseguir travar a queda. A pele aberta agora queimava sob o atrito da calça.
Ele passou o antebraço pela testa.
O suor escorria pelos olhos, borrando a visão.
Por um momento pensou em olhar para baixo.
Não olhou.
A montanha exige atenção total. Cada passo importa.
Ele pressionou o pé em uma pequena saliência e ergueu o corpo mais alguns centímetros. O braço direito protestou. Os músculos pareciam pedir descanso, mas a rocha não oferecia lugares generosos para parar.
Outro puxão na corda.
Outro avanço.
E então veio o pensamento que o acompanhava desde o início da subida.
Não era a montanha que o cansava.
Era a lembrança.
Recordou-se de outra tarde no topo. Ele ficara ali por muito tempo, apenas observando a luz do sol atravessar as nuvens e descer sobre os vales. Naquele silêncio havia uma paz que ele nunca encontrara em nenhum outro lugar.
Agora cada metro exigia esforço.
A intimidade que antes fora natural agora parecia distante, como o topo que ele deixara para trás.
Ele apertou a corda com mais força.
As mãos arderam.
“Continue”, disse a si mesmo, em silêncio.
Outro apoio.
Outra puxada.
A perna tremeu.
Não era apenas cansaço.
Era medo.
Medo de não conseguir voltar ao lugar onde um dia já estivera.
Ele fechou os olhos por um instante.
E então percebeu algo que até aquele momento havia ignorado.
A corda.
Ela estava ali o tempo todo.
Firme.
Esticada acima dele.
Sustentando cada avanço.
Presa a algum ponto que ele ainda não conseguia ver.
Ele não havia colocado aquela ancoragem.
Mas ela estava ali.
E cada vez que escorregava, era ela que o segurava.
Ele abriu os olhos novamente.
Respirou fundo.
O horizonte apareceu por um instante entre duas rochas acima dele, iluminado por uma faixa clara de luz que descia sobre a montanha.
Ele firmou os pés sobre a rocha.
O topo ainda estava distante.
Puxou a corda outra vez.
E subiu.
Eliseu Oliveira
A luz que não se vê
A luz que não se vê
Este conto foi escrito inspirado na música "Salvador glorioso", de minha autoria. A narrativa busca traduzir em forma literária a experiência interior expressa na canção, explorando o encontro silencioso que transforma o modo de viver e perceber o mundo.
Naquela noite, a cidade parecia mais pesada.
As luzes acesas não iluminavam de verdade, apenas recortavam o cansaço nos rostos, a pressa sem destino. Ele saiu tarde do trabalho, o celular vibrando no bolso com mensagens ignoradas. Caminhava devagar, como quem já não esperava muito do dia seguinte.
Havia um vazio persistente dentro dele, que aparecia nas pequenas coisas, na comida sem gosto, nas respostas automáticas, no hábito de rolar a tela sem realmente ver.
Parou diante da janela do pequeno apartamento. A pia ainda tinha louça acumulada. Na cama, um notebook aberto com tarefas inacabadas. A televisão ligada sem som piscava imagens sem sentido. Lá fora, o mundo continuava girando. Lá dentro, tudo parecia suspenso.
Foi então que algo mudou.
Não houve barulho, nem visão extraordinária. Apenas uma presença, discreta, quase imperceptível, como quando a mente desacelera depois de um dia longo demais. Mas havia algo diferente, não era externo, vinha de dentro.
Uma luz.
Não uma luz que se vê, mas uma clareza que se instala. Como se o ruído diminuísse o suficiente para que ele pudesse se ouvir. Pensamentos confusos começaram a se organizar, a tensão nos ombros cedeu, a respiração encontrou um ritmo mais calmo. Pela primeira vez em muito tempo, ele não precisava escapar.
A paz não resolveu tudo. Mas trouxe uma certeza silenciosa, ele não estava sozinho.
E naquele instante, algo fez sentido.
Não como ideia, mas como encaixe.
A vida, pela primeira vez, não parecia distante.
A ideia de controle começou a perder força. Ele percebeu o quanto havia tentado sustentar tudo sozinho. E, no meio disso, surgiu um desejo simples, direto.
"Vem morar em mim."
As palavras vieram baixas, quase um sussurro.
"Vem transbordar em mim para que todos possam te conhecer."
O silêncio permaneceu, mas já não era vazio.
Algo começou a se reorganizar dentro dele. Não de forma brusca, mas constante. Pensamentos se alinharam, pequenas decisões deixaram de pesar tanto.
Dias depois, alguém o observou e perguntou, "O que aconteceu com você?"
Ele pensou por um instante. Não havia como explicar tudo.
"Eu parei de tentar sustentar tudo sozinho."
Fez uma pausa, respirou fundo.
"Eu só quero viver assim agora, ser espelho do Teu amor."
E havia algo diferente nele.
Ele ouvia mais do que falava. Não evitava mais as pessoas. Respondia mensagens que antes ignorava. Coisas simples, antes descartadas, agora tinham peso.
Não era apenas tranquilidade.
Era direção.
Nenhuma solidão
Nenhuma solidão
Quando atravessei a porta, não entrei apenas na casa, entrei no passado.
O ar era denso, carregado de um silêncio antigo. A luz entrava tímida pelas frestas, revelando partículas de poeira que flutuavam lentamente, como se o ambiente estivesse pausado no tempo. Havia desordem, sim, mas não abandono completo, era apenas o tipo de bagunça de quem nunca teve pressa de organizar.
Meu avô nunca ligou muito para isso.
A casa tinha seus excessos, jornais empilhados em uma cadeira, revistas antigas ocupando uma estante inteira, caixas guardadas com objetos que provavelmente só ele saberia explicar. Ainda assim, havia espaços de passagem, móveis reconhecíveis.
Passei a mão por uma mesa e senti a textura áspera da poeira leve. Não era descuido, era o tempo acumulado.
Então veio o cheiro.
Antigo, familiar, difícil de definir. Mistura de papel envelhecido, madeira e algo que não se explica, mas que reconheci na hora. O cheiro dele.
Parei por um instante.
E senti saudade.
Segui caminhando pela casa, mais devagar agora. Cada cômodo parecia guardar ecos da voz dele, como algo que trazia de volta seus conselhos.
“Pessoas são mais importantes que coisas.”
Na época, ouvi como quem não precisa ouvir. Agora, eu não conseguia ignorar.
Entrei em um dos quartos.
Sobre um banco, havia uma pilha de fotografias. Sem organização, como o restante da casa, mas diferentes. Vivas.
Peguei a primeira.
Meu avô sorria.
E não estava sozinho.
Outra foto, mais pessoas.
Outra, mais rostos.
Nenhuma solidão.
Fui passando uma a uma, e a imagem que eu tinha dele começou a se desfazer. Sempre pensei que seus últimos anos fossem solitários. A casa empoeirada e silenciosa reforçava essa ideia.
Ali estavam meus primos, suas famílias, crianças ao redor dele. Amigos reunidos, mesas cheias, aniversários celebrados.
Em outro álbum, encontrei seus irmãos, reunidos nos aniversários mais recentes. Em uma foto mais difícil, ele estava em uma cama de hospital, expressão cansada, perna engessada, mas cercado. Ninguém faltava.
Em outra sequência, já em casa, o velho cão aparecia deitado ao lado dele, fiel como sempre.
Fiquei parado.
A casa continuava a mesma, simples, marcada pelo tempo, com seus excessos e suas memórias espalhadas. Mas já não parecia vazia.
O vazio estava em mim.
Fui descendo as fotos devagar, até que já não havia mais nada para ver.
Meu avô não morreu sozinho.
Eu é que não estava lá.
Enquanto outros encontravam tempo, eu buscava coisas, não pessoas. Enquanto ele acumulava lembranças, eu acumulava ausência.
Olhei ao redor.
Tantas coisas guardadas… ainda assim, ele nunca perdeu o essencial.
Eu perdi.
A frase voltou, agora incontornável:
“Pessoas são mais importantes que coisas.”
Dessa vez, eu ouvi.
Tarde demais.
Eliseu Oliveira
98%
98%
Após assistirem a um holograma antigo, intitulado “CRISE HÍDRICA GLOBAL — ANO 2145”, exibido em uma área pública da estação, ao chegarem ao quarto, o filho perguntou ao pai: “Como era morar no planeta?”
O pai, sabendo que o assunto era delicado, soltou um suspiro. “Seu avô me contava histórias sobre o antigo mundo. Dizia que era lindo. Eles tinham tudo o que precisavam para viver. Havia animais, plantas de todas as espécies, árvores… e muita água.”
“Como assim muita água?”, perguntou o filho.
O pai pressionou um botão e a parede do quarto se tornou uma grande janela panorâmica. “Havia água em quase toda a superfície do planeta. Os humanos não precisavam de respiradores, nem de purificadores de ar, nem de comida processada.”
Através do vidro, o pai apontou para um ponto no planeta. “Olha… toda aquela área ali era coberta por água.”
O filho observou em silêncio por alguns segundos e perguntou: “O planeta foi criando a água e juntando tudo em um lugar só?”
“Não, filho. A água já chegou pronta”, respondeu o pai, com um leve sorriso.
Atrás deles, uma torneira esquecida permanecia aberta. A água escorria, lenta e constante, pela pia metálica, desaparecendo pelo ralo.
“E de onde veio essa água toda?”, insistiu o filho.
“Não se sabe ao certo. Alguns livros antigos diziam que veio de um grande meteoro de gelo, há muito tempo.”
O filho voltou o olhar para o planeta seco.
“Seu avô dizia que os humanos não cuidavam bem do que tinham.”
O filho ficou em silêncio por um instante. Depois perguntou: “Mas não tem problema agora, né pai? Aqui a água nunca vai acabar?”
O pai hesitou.
O filho continuou: “Aqui tem de tudo. Piscina, spa… água à vontade.”
O pai não respondeu.
No painel central da parede, uma informação permanecia acesa: Reciclagem hídrica 98%.
Atrás deles, a água da torneira continuava escorrendo.
Eliseu Oliveira
Manual Caipira do Pleonasmo Aplicado e Explicado
Manual Caipira do Pleonasmo Aplicado e Explicado
“Pai, acabei de vê o gambá escalano a parede da casa véia. Ele subiu pra cima do telhado!”
O pai largou a caneca de café na mesa e pegou um puçá encostado atrás da porta. Espiou o quintal, vendo com os próprios olhos, como se a precisão do olhar ajudasse a localizar o gambá.
Assim que passou pela porta, parou e disse: “Ô fio, num precisa falá ‘subiu pra cima’, não. Subir já é pra cima. Num existe subir pra baixo.”
O menino focou a atenção no pai, sério demais para os seus treze anos, enquanto caminhava em direção à casa velha, e retrucou: “Uai… e por que tá errado? Eu tô sendo bem claro que ele subiu, pra cima.”
“Isso aí é um tal de pleonasmo, meu fio.”
“Ple… o quê?”, perguntou o menino, coçando a cabeça.
“É quando a gente fala a mesma coisa duas veiz diferente, mas querendo dizê a mesma coisa. ‘Subir pra cima’, ‘entrar pra dentro’. Se tá subino, já é pra cima; se tá entrano, já é pra dentro. Num precisa falá duas veiz.”
O menino franziu a testa e, com a cabeça de lado, desviou o olhar pro chão, como quem revira as palavras por dentro. Ficou alguns segundos parado sem se mexer, com os olhos apertados, fazendo força pra entender. Depois balançou a cabeça devagar, meio convencido, meio desconfiado, e disse: “Acho que entendi…”
Fez uma pausa curta, respirou fundo e completou: “Tá bão… mas se o sinhô num for logo, o gambá vai é fugir pra sempre de vez.”
O pai avançou com cuidado, calculando mentalmente em pensamento o caminho do bicho. O gambá, imóvel por um segundo, parecia ouvir a conversa, como quem aguardava o momento exato para escapar.
“Óia lá”, disse o pai, “ele num tá fugino não. Espera um pouco que ele vai voltar pra trás.”
O gambá, contrariando a previsão do pai, pulou de um pulo só do telhado pro chão, correu pela lateral da casa e escapou por um buraco embaixo da cerca.
Enquanto caminhavam apressadamente pro outro lado da casa, o menino perguntou: “Pai… voltá já num é pra trás? Tem como voltá pra frente?”
“Do que ocê tá falano, menino?”, resmungou o pai, sem parar de andar.
“Foi o sinhô que começou com esse tal de pleonasmo aí. Eu só queria pegá o gambá.”
“Ocê é exatamente igual à sua mãe… gosta de me irritá.”
O menino pensou um instante e devolveu: “Exatamente já quer dizê que é igual, pai. Num precisa falá duas veiz.”
Nessa hora, o pai, que já havia perdido o interesse no gambá, olhou pro filho com o semblante fechado, impressionado e contrariado por ter sido corrigido, e resmungou: “Continua assim que ocê vai senti na própria pele uma chinelada minha.”
“Só dá pra senti alguma coisa se for pela pele, pai. Num tem como senti pelo cabelo”, respondeu o menino, apreensivo e calculando o risco.
O pai não disse mais nada, balançou a cabeça, se virou e começou a voltar pra cozinha.
Foi então que uma surpresa inesperada surgiu diante dos dois: o gambá, que parecia ter fugido de vez, voltava devagar, bem lentamente, pelo quintal.
“Óia, pai! Óia! O gambá voltou!”, gritou alto o menino.
O pai, que retornava em silêncio absoluto, olhou para o filho, depois para o gambá e, cabisbaixo, balançando a cabeça, resmungou: “Tá vendo só? Até o gambá voltou pra me irritá… ele nem precisou corrigir meu português.”
Eliseu Oliveira
Viciados – Tipo, Né, Aí
Viciados – Tipo, Né, Aí
Esse texto não tem densidade emocional para ser um conto literário pleno nem reflexão suficiente para uma crônica tradicional. Aproxima-se mais de um híbrido entre observação e narrativa curta.
Naquela tarde abafada, o bar parecia respirar junto com a cidade: cheiro de fritura quente, cadeiras arrastando no piso gasto, o narrador gritando na televisão enquanto a rua ainda vibrava com o fim do jogo.
Do lado de fora, um adesivo desbotado que anunciava o jogo prendia-se à porta de vidro; dentro, a televisão reprisava o gol do clássico carioca daquela noite. Era um bar de esquina, onde cada freguês tinha um time e um modo próprio de falar dele.
Lucas ria, mas o maxilar travado entregava o dia pesado; Mateus enchia tudo de “né” sempre que o silêncio ameaçava expor inseguranças; João vinha num ritmo acelerado, jogando “aí” pra todo lado, como se tentasse acompanhar o próprio nervosismo desde que o campeonato começou.
“Cara, tu viu aquele gol?”, perguntou Lucas, apoiado na janela do bar, os olhos grudados na TV lá dentro. “O cara chutou de fora da área e, né, acertou bem no ângulo, né?”
“Vi, vi!”, respondeu Mateus, rindo. “Mas... né, foi sorte, né? Que o goleiro tava distraído.”
“Ah, tipo, ele nem pulou direito!”, completou Lucas, balançando a cabeça. “E o zagueiro, né, parecia uma estátua.”
“Pois é, né, tipo, só ficou olhando... parecia que tava vendo o replay ao vivo”, disse Mateus, rindo.
Lucas virou o rosto, arqueou a sobrancelha e perguntou: “Tu já percebeu que tu fala ‘né’ em tudo o que diz?”
Mateus piscou, surpreso.
“Falo mesmo, né?”, respondeu, e riu ao perceber o vício repetido. “Nem sei por quê, né... Mas acho que é igual tu, que fala ‘tipo’ o tempo todo.”
Entre uma provocação e outra, dava para notar que aquelas manias de fala não vinham só deles: escorriam da escola, dos vídeos curtos do celular e das conversas apressadas do dia a dia, como se o jeito de falar estivesse sempre pegando de alguém.
“Eu?”, Lucas fingiu espanto. “Tipo, não falo tanto assim.”
“Fala sim, cara!”, rebateu Mateus, rindo. “Tipo, a cada frase, umas três vezes.”
Enquanto os dois riam e se provocavam, João apareceu, ainda com a empolgação do jogo estampada no rosto.
“Aí, vocês viram o final, aí? O juiz, aí, quase deu pênalti, aí!”, disse de uma vez só, gesticulando como se o lance ainda estivesse acontecendo.
Lucas e Mateus se entreolharam, segurando o riso.
“Mano…”, começou Lucas. “Tipo, tu reparou que tu fala ‘aí’ o tempo todo?”
“Eu?”, João franziu a testa. “Aí, será?”
Os três caíram na gargalhada.
“Acho que a gente tá tudo viciado”, disse Mateus, recuperando o fôlego. “Cada um com seu próprio jeito.”
“Né?”, respondeu Lucas.
“Tipo, é mesmo”, completou João, rindo.
“Mano, o narrador parecia aquele meme do cara que grita ‘é hoje!’”, comentou Lucas.
Mateus respondeu imitando um streamer famoso: “Papo reto, o goleiro tiltou total.”
João completou: “Se fosse no TikTok já tinha uns dez edits desse lance.”
Entre provocações, Mateus deixou escapar um “real oficial”, Lucas encaixou um “literalmente” fora de lugar e João arrematou com um “tô falando” que não convencia ninguém. Era como se cada vício fosse um botão automático acionado pela convivência, pelos vídeos curtos, pelas conversas rápidas.
Um silêncio breve tomou conta do grupo, até que um senhor que ouvia a conversa ergueu o copo como quem segurava um pedaço de outro tempo; cada “né”, “tipo” e “aí” batia nele como prova de que a língua corria mais rápido do que ele conseguia acompanhar. “Pior é o meu neto, que só fala ‘tá ligado?’!”, gritou.
Os três se olharam e, em coro, responderam: “Tô ligado!”
O senhor bufou, pegou o copo e retrucou: “Vocês tão é tudo contaminado!”
“Tipo, né, deve ser da água, aí… dessa aí que passarinho não bebe, né?”, respondeu João, segurando o riso e fingindo seriedade.
O senhor parou e olhou tentando acompanhar.
“Se for da água, né, então eu só vou beber refrigerante, tá ligado?”, disse Mateus, e os três começaram a rir de novo.
O senhor balançou a cabeça, resmungando: “Esses jovens, né… daqui a pouco inventam um idioma novo só com muletas!”
Lucas deu de ombros e provocou: “Tipo… né… aí… tá ligado?”
O bar inteiro caiu na risada.
As risadas se espalharam pelo bar, e por um segundo pareceu que até o narrador da TV ia escorregar num “tá ligado?”.
Eliseu Oliveira